Gostaria de saber pra quem escrever e assim escreveria somente para aqueles que se importam com as minhas palavras, como isso passa longe do meu saber atual, esse texto não tem intenção outra que realizar a minha vontade individual de dizer. Talvez esse seja o ambiente apropriado para isso, pelo menos é mais apropriado do que bares, jantares, almoços e reels do instagram.
Podemos fazer o exercício mental de imaginar que toda escrita carrega uma tese, essa tese pode ser válida ou inválida, antes de ser verdadeira ou falsa, as teses válidas são aquelas que geram ação, palavras que organizam ideias que organizam pensamentos que por sua vez, movem. Se eu escrever um texto capaz de mover alguém a algo, minha tese é válida.
Um caso superior de escrita é quando escrevo algo que move um grupo a fazer X ou Y, agora quando essas ações são movidas por princípios que favorecem o bem comum, isso é, quando as ações melhoram a vida do indivíduo, da comunidade e do ambiente, a tese é mais do que válida, ela contém algo de verdadeiro. Quanto mais um texto favorece o bem comum, maior é o potencial dele como uma ferramenta de mudança.
Eu sou um sujeito de boas inenções, meu único inimigo é a ignorância, tê-la como inimigo me dá material de incentivo pra uma eternidade, por causa disso não me ocupo com problemas de ordem trivial como preferências pessoais, tipos ou cores de roupas, cortes de cabelo, etnia, vocabulário etc. O que importa pra mim é o saber, a consciência e a capacidade de causar estímulos em direção ao esclarecimento.
Então me pergunto: Como escrever para ser lido e compreendido? Nos meus sonhos mais distantes, alguém me pergunta algo com a intenção de resolver um problema concreto, pede minha ajuda para solucionar esse nó complexo, eu escrevo, pesquiso, elaboro, crio hipóteses e testamos, assim, eventualmente é atenuado com o tempo, ainda que não seja solucionado por completo. Contudo, na realidade o que ocorre é uma presunção de ignorância do interlocutor para comigo de natureza tão profunda que ele, o interlocutor, me poupa até mesmo de elaborar uma pergunta e me comunica apenas através de palavras que servem só para pausar o silêncio.
Ainda existem outros casos que ocorrem com certa frequência: um sujeito ao descobrir a minha vontade de elaborar hipóteses e testá-las, fazem o desfavor de me comunicar o seu problema de uma forma tão extremamente vaga que deixa qualquer análise impossível, ainda nessa ocasião ignora minhas perguntas que têm a intenção de esclarecer o problema, revelando que a única intenção desse sujeito era menosprezar a filosofia. Outro caso mais comum é o uso das palavras para dizer tudo menos o que as palavras estão realmente dizendo.
Penso que este último comportamento seja uma herança do cristianismo, que surgiu em um contexto de opressão enorme que levava pessoas a se comunicarem por códigos, um gigantesco trauma social. Talvez em algum momento da vida, a maior parte das pessoas foi punida por comunicar as próprias intenções, talvez seja uma repetição irrefletida desse trauma social herdado tradição cristã, tão importante na história brasileira.
Contudo, comunicar-se através de palavras que ocultam suas verdadeiras intenções é uma contradição em termos. Ao deparar-se com um ser humano que compreende de maneira básica o mesmo idioma que o seu, deveria ser suficiente dizer as palavras que condizem com suas intenções, objetivos e valores.
A performance vazia, a manipulação e a fala desviante deve acontecer apenas com fim de entretenimento, em palcos, música, poesia... No caso de ocorrerem em contextos cotidianos, que sejam então absolutamente vazias de sentido, apenas pela alegria do jogo de palavras, nunca escondendo ofensas. Além disso, o maldizer deve servir para proteger o coletivo, explicitar um comportamento digno de correção para que os colegas fiquem alertas, se for o caso de maldizer sem que haja nenhuma consequência, é melhor ficar calado.
Digo todas essas coisas e elas podem soar como se eu tivesse alguma autoridade pra colocar regras em algum lugar, não é o caso. Tenho autoridade apenas para decidir o que vou dizer e convidar o leitor a fazer essa reflexão. Não me parece haver um bom motivo para maldizer de maneira inconsequente, fazer mal uso da linguagem, ou manipular.
Quando se faz uso da manipulação e do discurso desviante, o indivíduo perde partes de si, tornando-se individualista e egocêntrico, esses traços incapacitam-no de desenvolver sua auto-estima. Corrigir esses usos viciosos da linguagem não envolvem o "não fazer", envolvem gastar essa energia combatendo a ignorância, quebrando padrões repetitivos de pensamento, adquirindo novos conhecimentos e habilidades.
Essa tão subestimada prática de limpeza mental, permite que o sujeito cresça, fique mais forte e com auto-estima suficiente de garantir para si as coisas que deseja sem o uso da força. Considerando o tanto de conhecimento que ainda falta ser construído, ninguém está pronto, acabado, cheio. Todos têm algo a aprender e melhorar, compreender isso permite que respeitemos o lugar do outro, da alteridade, que pode ensinar através de estímulos que seriam impossíveis de chegar se não de fora.
Esses estímulos na maioria das vezes são desconfortáveis, porque aprender é desconfortável. Contudo, se lutamos por uma sociedade melhor, mais justa, mais honesta e solidária, é porque vivemos em uma sociedade imatura, injusta, desonesta e egoísta. Se isso for verdade, diminuir essas qualidades negativas é mandatório para emergir a possibilidade de um novo estado de coisas.
É fácil compreender também que a sociedade brasileira, especialmente a sul-mato-grossense está na infância da existência e talvez cogitar que amadureçamos seja ter expectativa demais. Contudo, minha solidariedade me leva a causar estímulos de amadurecimento nos adultos. O tempo da infância das crianças só pode ser vivido se os adultos estiverem vivendo um tempo de maturidade.
Muitos de nós foram explorados, expostos a condições piores do que ruins e eventos idem. Contudo, o movimento de mudança não nega o conforto atual, não é uma atitude de ingratidão, ela pode ser o contrário, aumentar o bem-estar, o convívio, o senso de pertencimento tanto em si quanto entre os outros e a abundância material e financeira.
